TRANSE E MEDIUNIDADE UMBANDISTA

 

O termo transe vem do latim transire [que significa “atravessar”, passar por cima”], chegando ao francês antigo em que Transe significa “medo do mal”, passando para “uma condição atordoada, semiconsciente ou insensível ou estado de medo”.

É um estado de semiconsciência no qual a pessoa não tem consciência de si mesma e é totalmente insensível a estímulos externos, porém, se mantém capaz de perseguir e chegar a um objetivo. Também pode responder seletivamente, seguindo as instruções de outra pessoa que a tenha induzido àquele estado. Os estados de transe podem ocorrer involuntariamente ou podem ser solicitados.

O termo pode ser associado à hipnose, possessão espiritual, magia, estado de fluxo, drogas psicodélicas e estados alterados de consciência.

Para o psicólogo Dennis Wier, no livro Transe: da magia à tecnologia (1996), o transe simples é um estado mental causado por ciclos cognitivos onde um objeto (pensamento, imagem, som ou uma ação intencional) se repete por tempo suficiente para resultar em vários conjuntos de funções cognitivas desativadas. O autor representa todos os transes (incluindo o sono e assistir televisão) como ocorrendo em um plano de transe dissociado, onde algumas funções cognitivas como a volição (ato de escolher, decidir e se comprometer com uma ação), são desativadas, como se observa no chamado transe hipnótico.

Assim sendo, meditação, hipnose, vícios e carisma são vistos como estados de transe.

No livro O Caminho do Transe (2007), Wier elabora sobre essas formas, inclui o êxtase como uma forma adicional e discute as implicações éticas de seu modelo, incluindo o uso mágico e governamental, que ele denomina “abuso do transe”.

O jornalista científico John Horgan, em seu livro Misticismo Racional (2003), explora os mecanismos neurológicos e as implicações psicológicas do transe e outras manifestações místicas. Nesta obra, o autor incorpora literatura e estudos de caso de diversas disciplinas, como química, física psicologia, radiologia e teologia.

Os estados de transe abrangem diversos estados mentais humanos, como emoções, humores e devaneios. Todas as atividades humanas implicam a filtragem de informações que chegam aos sentidos, e isso influencia o funcionamento do cérebro e a consciência. Assim sendo, o transe pode ser compreendido como uma forma de a mente alterar a maneira como filtra informações, a fim de utilizar seus recursos de forma mais eficiente.

Os estados de transe também podem ser acessados ou induzidos por diversas modalidades e são considerados por algumas pessoas como uma forma de acessar a mente inconsciente para fins de relaxamento, cura, intuição e inspiração. Existe um extenso histórico documentado de transe, como evidenciado pelos estudos de caso de antropólogos e etnólogos, bem como de disciplinas associadas e derivadas.

Os princípios do transe estão sendo explorados e documentados, assim como os métodos de indução do transe. O funcionamento da mente durante o transe e os benefícios dos estados de transe estão sendo explorados por pesquisas médicas e científicas. Muitas tradições e rituais empregam o transe, que também tem uma função na religião e na experiência mística.

No artigo do antropólogo e psiquiatra Richard Castillo, intitulado Cultura, Transe e a Mente-Cérebro (1995), o autor afirma que: “Os fenômenos de transe resultam do comportamento de foco intenso da atenção, que é o principal mecanismo psicológico da indução do transe. As respostas adaptativas, incluindo formas institucionalizadas de transe, são ‘sintonizadas’ em redes neurais no cérebro e dependem em grande medida das características da cultura. Organizações específicas da cultura existem na estrutura de neurônios individuais e na formação organizacional de redes neurais.”

Até aqui, publicamos trechos uma rápida pesquisa feita na internet acerca de definições acadêmico-científicas ou de obras literárias caracterizadas por esse rigor.

É comum, por parte desses pesquisadores, invariavelmente, realizarem uma análise puramente exterior dos fenômenos, afinal, eles não têm acesso [ou não querem ter] ao espírito e aos seus modos de manifestação. Sabemos nós, a ciência acadêmica, na grande maioria das situações, desconsidera a subjetividade ou, ao menos, analisa-a a partir de métodos equivocados. O ideal seria que esses acadêmicos e cientistas levassem o “modo sentir” humano em consideração, colocando-o como protagonista em tais ações. Só assim poderiam, de fato, iniciar uma caminhada rumo a um conhecimento mais profundo do assunto.

Em tempo: na nossa definição, modo sentir é tudo aquilo que acessamos no íntimo – como sentidos ou sentimentos (intuições, emoções etc.) -, anterior a qualquer manifestação física e palpável. É, em verdade, a base para tudo o que nos é tangível. Entendemos, portanto, que toda análise puramente externa ou que ocorra avaliando e estudando os fenômenos única e tão somente a partir do seu lado de “fora” será sempre parcial, limitada e insuficiente. O estudo pleno deve ocorrer de dentro para fora, nunca ao contrário.

Para Spinoza, mente e corpo são uma coisa só. Razão e afetos [que, por aqui, definimos como sentidos, sentimentos ou modo sentir] não são coisas opostas tampouco estão hierarquizadas. O filósofo entende que a razão só tem força para agir se for transformada em um afeto, e os afetos são guiados pela razão.

Nós entendemos que o modo sentir (ou os afetos, para Spinoza) são guiados pelo holofote da razão, portanto, não podemos desconsiderá-la. Porém, um holofote precisa de algo para ser iluminado – neste caso, tudo aquilo que sentimos e é manifestado a partir do espírito -.

Poderíamos analisar aqui variadas formas de transe religioso definidas academicamente por uma gama de pesquisadores científicos, mas, não assim faremos. Deter-nos-emos a uma rápida – porém profunda – avaliação desses aspectos até agora abordados, numa relação direta com a mediunidade umbandista, especialmente, na sua forma mais comum de manifestação: a incorporação.

Cabe ressaltar: já presenciamos diversas análises de acadêmicos e cientistas acerca da incorporação, definindo-a como estado de transe. E isso nos motivou a escrevermos nossa reflexão acerca do assunto, registrando o que nos mostra o nosso ideário neste aspecto.

No início deste texto, em que dedicamos a uma breve exposição do entendimento científico-acadêmico acerca do transe, observamos algumas características desse fenômeno, tais como: hipnose, possessão espiritual, magia, estado de fluxo, drogas psicodélicas e estados alterados de consciência.

Vamos entendê-los:

  • Hipnose é um estado de consciência caracterizado por atenção concentrada, maior relaxamento e alta receptividade a sugestões. Não é sono ou perda de controle; trata-se de uma ferramenta terapêutica ou de comunicação (hipnoterapia) que ajuda a acessar o subconsciente para modificar comportamentos e aliviar sintomas.

Breve comentário: Na incorporação, o guia espiritual não hipnotiza o(a) médium, tampouco busca modificar seus comportamentos. Simplesmente, a partir de um acoplamento da sua aura com a da pessoa encarnada, ele passa a controlar seus chacras (e seu mental), realizando, a partir daí, movimentos e falas que serão repetidos pelo(a) médium, que tem o pleno controle sobre suas ações e pode desincorporar quando desejar.

  • A possessão espiritual é um estado alterado de consciência no qual uma entidade (espírito, demônio ou divindade) supostamente assume o controle do corpo e das funções de um indivíduo. Os sintomas frequentemente incluem mudanças drásticas de comportamento, movimentos corporais involuntários e desconexão com a própria identidade.

Breve comentário: Nenhum guia espiritual se apossa do corpo do(a) médium. Este(a) tem seu livre arbítrio designado pela Lei e pela Justiça Divina. Ocorresse isso, seria um sequestro consciencial, uma ação fora da lei.

  • Magia é a prática, arte ou crença de manipular forças ocultas ou sobrenaturais para produzir efeitos extraordinários. O termo possui múltiplas vertentes e pode se referir tanto a rituais espirituais e esotéricos quanto a fenômenos inexplicáveis e até ao ilusionismo.

Breve comentário: Magia é o ato de se manipular mistérios realizando transformações de estados, nada tem a ver com ilusionismo, como na definição acima descrita (Isso seria mágica, nunca magia). A incorporação não é um ato mágico (ou de magia) por si só, mas pode (e muitas vezes assim ocorre) ser veículo e caminho para que guias espirituais, incorporados, realizem as suas magias.

  • O estado de fluxo (ou flow) é um estado mental de imersão e concentração total em uma atividade, no qual a pessoa perde a noção do tempo, desliga-se de distrações externas e atinge alto rendimento. O conceito foi cunhado pelo psicólogo Mihály Csíkszentmihályi e é caracterizado pelo equilíbrio exato entre o desafio da tarefa e a habilidade de quem a executa.

Breve comentário: Na incorporação umbandista, podemos até considerar que, em alguns casos, determinados(as) médiuns percam a noção de tempo (durante o período em que estiverem incorporados -as-). Porém, o que seria, no caso umbandista, atingir um alto rendimento? O(a) médium(a) equilibrado(a) entregará seu corpo para que o Guia de Lei atue e realize suas ações, portanto, o rendimento será sempre atribuído ao manifestador espiritual.

  • Estados Alterados de Consciência (EACs) são condições mentais temporárias em que a percepção, a cognição e o senso de identidade se desviam do estado normal de vigília. Eles alteram profundamente a atenção, as emoções e a relação com o tempo, podendo ser induzidos intencionalmente, de forma fisiológica ou por fatores patológicos.

Breve comentário: Pode acontecer com alguns médiuns, pois, sabemos, há uma parcela que “adormece” durante a incorporação. Porém, médiuns conscientes ou semiconscientes, acompanham tudo como se assistissem a um filme em silêncio e com ele aprendessem, sem interferirem no processo.

Não comentaremos sobre drogas psicodélicas, pois, o nosso foco é o ambiente mediúnico umbandista e esse tipo de manifestação não nos pertence.

A diferença básica entre os estudiosos acadêmicos na análise do recurso da incorporação e o nosso ideário está, justamente, na experiência prática. Nós também somos estudiosos e buscamos um aprofundamento científico (baseado fundamentalmente na Ciência Divina) acerca de tudo o que vemos na nossa prática umbandista, portanto, nunca apregoaremos que os estudos científicos, seja na área das ciências humanas ou outras, devem ser desconsiderados. Eles devem ser considerados sempre, pois nos trazem importantes ensinamentos e contribuições para o nosso crescimento. A realidade material e externa é concreta e é nela que estamos inseridos e evoluindo. Porém, suas análises no que se refere a qualquer manifestação espiritual são, no máximo, parciais, quando desconsideram o próprio espírito como força da natureza e motor daquilo que estão estudando, estacionando seus olhares apenas no aspecto cultural de tais ações [aspectos estes fundamentais, mas puramente externos, funcionando como roupagens e, todos sabemos, “roupas” vestem e identificam, mas não definem aquilo que vestem].

Portanto, aqui registramos a nossa conclusão contundente e peremptória de que a mediunidade de incorporação [ao menos no ambiente umbandista] nada tem a ver com transe, não carrega tais características, pois, a Lei de Pemba que à Umbanda rege não permite, nunca permitiu e nunca permitirá que a liberdade do espírito, designada por Deus, seja tolhida do ser, de cada ente trabalhador no chão umbandista.

Fica a nossa breve análise e pensamento acerca do tema para estudos, reflexões e discussões nos seus grupos umbandistas ou até mesmo nos seus terreiros.

 

Um saravá fraterno!

André Cozta

 

 

REFERÊNCIAS

 

  • Link da imagem:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Transe#/media/Ficheiro:The_Oracle_of_Delphi_Entranced.jpg

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