No texto anterior, dissertamos sobre a metáfora partindo do seu significado e esmiuçando a sua utilidade em nosso contexto sociocultural. Entendemo-la como um transporte de sentido (esse é o seu significado) que vai muito além dos mitos, lendas ou fábulas.
Também externamos nossa preocupação com aquilo que denominamos como metaforização da metáfora, ou seja, um transporte de sentido que advém de outros conceitos que acabam sendo transferidos para ela – a metáfora -, formando uma espécie de “enxerto conceitual”, deturpando o seu significado. Isso ocorre quando, por exemplo, a entendemos como fetichismo, fantasia etc. Trocando em miúdos: damos a ela sentidos que não condizem com a sua essência, mas acabam sendo inseridos [ou “enxertados’] erroneamente, por conta do nosso desconhecimento.
Insistiremos na tese de que a metáfora não se apresenta somente em mitos ou lendas, mas que está presente em muitas outras manifestações culturais e religiosas. Se retornarmos ao texto anterior, veremos um exemplo prático, além de uma breve reflexão acerca de como podemos nos utilizar dela de forma que possamos acessar o seu sentido e o seu significado, afinal, entendemos que ela traz em si conceitos que são, nada mais nada menos do que essências traduzidas a nós por intermédio da linguagem.
O contexto religioso umbandista é fundamentalmente simbólico. Muitas religiões, ao longo da história, carregam o simbolismo muito presente em sua identidade. A Umbanda, como religião natural e espiritualista que é, tem na simbologia um dos seus principais pilares.
Em todas as manifestações da nossa religião, vemos transporte de sentido quando percebemos que essências são transferidas de suas realidades originais (se assim podemos dizer) para a nossa atual realidade material. Isso ocorre quando elas [as essências] são ativadas por símbolos desenhados ou pontos riscados, mas também quando outros elementos são acionados ritualisticamente.
Vejamos: ao desenhar uma estrela, um guia espiritual está acessando a um mistério – ou a mais de um – que nos traz essências divinas, por intermédio de forças espirituais, que atuam em nosso benefício nos mais variados campos da vida. Então, temos um símbolo conectando realidades distintas para evocar significados profundos, para ativar mistérios maiores.
A utilização de paramentos também produz metáfora quando, por exemplo, um filá (gorro masculino utilizado por médiuns) não é usado apenas como ornamento ou simplesmente por uma questão estética, mas ativa um símbolo – um círculo – que conecta aquela pessoa à Coroa Divina. O círculo é o símbolo mais pleno e completo que conhecemos. Os planetas são esféricos e circulares. Temos nele, um símbolo mágico que representa e traduz o todo e. consequentemente, transporta até nós todos os poderes e forças que dele advêm. Esse transporte de sentido, poder e força, se mostra também quando um guia espiritual utiliza um chapéu ou qualquer outra cobertura na cabeça – com formato circular -, afinal, o nosso Orí é a conexão primeira e fundamental para com o Mundo Divino.
Assim, concluímos que a metáfora está presente nas mais diversas ativações religiosas, o que inclui a chama consagrada de uma vela, uma bebida ou uma erva religiosamente ativada, um cigarro, charuto ou cachimbo etc.
A partir desta reflexão, entendemos que há duas possibilidades de transporte de sentido:
- Quando o transporte ocorre entre semelhantes separados somente entre realidades – espiritual e material -, ou seja, quando um símbolo riscado na matéria acessa o poder desse símbolo no mundo divino por intermédio de forças espirituais ou, até mesmo, quando um elemento acessa, a partir da matéria, sua essência correspondente no astral;
- Quando o transporte de sentido é anômalo e acaba inserindo [“enxertando”, insistimos] um significado estranho àquele contexto simbólico e metafórico. Exemplos claros, já citados neste texto, ocorrem quando entendemos a metáfora como uma fantasia ou algo similar.
A segunda possibilidade descrita – que é a própria metaforização da metáfora – é preocupante, pois presta desserviços ao trabalho religioso e espiritual e, baseada em preconceitos, muitas vezes prejudica o bom andamento daquilo que precisa ser realizado.
Os sentidos simbólicos que podem nos ser transmitidos por intermédio de lendas, fábulas e mitos, trazem-nos uma ponte [ou um atalho] para ensinamentos – mas também para essências – que, quando inseridos em nosso íntimo, podem auxiliar-nos no processo evolutivo, em modificações internas, contribuindo para o nosso crescimento íntimo e moral.
Quando transmitidos a nós por intermédio de elementos ou de símbolos – em pontos riscados ou não -, tais essências nos auxiliam fortalecendo, purificando, abrindo a mente para novas ideias, visões de mundo etc., permitindo-nos que, a seguir, possamos promover as mudanças internas que se fizerem necessárias.
A metáfora simbólica e elemental pode também auxiliar-nos na purificação e na cura de mazelas espirituais, bem como, na quebra de demandas negativas (mentais ou elementais).
As legiões de guias espirituais também carregam em si mistérios divinos, essências, poderes e forças que se manifestam por intermédio dos arquétipos, dos símbolos, dos elementos, das ferramentas e dos instrumentos de trabalho. Tudo isso carrega metáfora em si, pois há transporte de sentido, poderes e forças para os elementos materiais, que são condensadores dessas essências e, simbolicamente, a nós são apresentados realizando suas funções em benefício do equilíbrio de tudo e de todos.
Seja por qualquer uma dessas vias, a metáfora se nos mostra como um caminho, mas também como uma aliada fiel em nossa caminhada evolutiva.
Que a entenda como fetichismo ou ação fantasiosa, quem optar ou insistir pela ignorância. Que procure aprofundar-se no seu entendimento, quem busca o conhecimento.
Muito mais poderíamos aprofundarmo-nos neste assunto, mas, tal mergulho não seria possível neste texto.
Reflitamos e, a partir de agora, com a visão desanuviada, utilizemo-nos melhor da metáfora em benefício do nosso crescimento e evolução.
Um saravá fraterno!
André Cozta
Link da imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/Linhas_da_umbanda#/media/Ficheiro:Arte_representando_as_entidades_das_Linhas_de_Umbanda.jpg



