Na música Boas Novas (1988), Cazuza nos diz: […] Direi milhares de metáforas rimadas e farei das tripas coração e do medo, minha oração […]
Mas, afinal, o que é isso?
A palavra metáfora tem origem na língua grega antiga e significa “mudança”, “transporte” ou transferência. Seu conceito literal sugere o “transporte de um sentido”. Na prática, é a transposição de um termo do seu campo normal de significado para outro, criando uma comparação implícita com base em uma semelhança.
Trocando em miúdos, é uma figura de linguagem que cria uma comparação ímplicita entre dois elementos distintos, transferindo características de um para o outro. Tem como objetivo principal enriquecer a comunicação, facilitando a compreensão de conceitos abstratos, gerando imagens mentais e transmitindo ideias com maior expressividade, criatividade e impacto.
Ela opera e transforma o discurso tornando-o tangível, mas também ajuda a explicar sentimentos, conceitos ou ideias complexas, usando termos mais concretos e de fácil visualização. Expressa o inexprimível, permite a comunicação de emoções intensas ou experiências subjetivas que palavras literais não conseguem descrever precisamente, aumenta o apelo emocional, deixa discursos, textos e conversas muito mais envolventes, elegantes e persuasivos, potencializa a memorização e funciona como um atalho mental, fazendo com que a mensagem seja absorvida e lembrada com maior facilidade pelo interlocutor.
Aristóteles foi o primeiro a abordar o tema da metáfora, identificando-a como termo genérico que abarca todas as figuras retóricas em geral. Por conseguinte, ao falar de metáfora, refere-se simultaneamente, e em sentido lato, a toda a atividade retórica.
Na Poética (capítulos 21-25) e na Retórica (livro III) designa metáfora como “o transporte a uma coisa de um nome que designa um outro, transporte quer do gênero à espécie, quer da espécie ao género, quer da espécie à espécie ou segundo a relação de analogia”.
Segundo esta definição aristotélica, podem identificar-se diferentes traços identificativos da metáfora, os quais influenciaram e regularam, até certo ponto, a história poética e retórica da metáfora, pelo menos até o século XVIII.
Para Paul Ricœur, a metáfora é muito mais do que um simples recurso literário de enfeite. Em sua obra A Metáfora Viva, ele a define como um evento de criação semântica que possui a capacidade heurística de “redescrever a realidade” e revelar verdades sobre o mundo que a linguagem literal não alcança.
Neste texto, não é nosso objetivo realizar um aprofundamento em autores/pensadores e conceitos acerca da metáfora, tão somente, com uma compreensão básica e introdutória acerca da sua função e importância, objetivamos partir para uma reflexão acerca da aplicação e do entendimento deste recurso no dia a dia e, fundamentalmente, na compreensão das coisas religiosas que se manifestam na Umbanda.
Retornamos ao trecho da música de Cazuza com o qual abrimos este texto e percebemos que ele fala em fazer do medo a sua oração. Pois, aqui colocamos o seguinte questionamento: não estamos, cada vez mais, fazendo do medo nossa oração? Desde quando vem sendo imposto, fundamentalmente por meio de metáforas assustadoras, o medo em nossas orações?
É importante refletirmos sobre isso, pois, cada vez mais, vemos as pessoas temendo a religiosidade, a divindade e o sagrado. O Divino que pune tem sido usado através de metáforas como uma arma de contenção e controle, dizendo às pessoas o que devem ou não fazer.
Em momento algum, queremos promover uma rebelião contra a metáfora. Como em tudo [ou em quase tudo] que conhecemos e/ou temos à disposição, nela também há dualidade, o que significa dizer que pode ser usada de forma útil, benéfica e positiva ou não.
Metaforizar é aplicar uma metáfora, é uma ação ou processo em que se utiliza tal recurso exprimindo ou criando conceitos, tranformando uma ideia complexa ou abstrata em uma imagem figurada, fazendo uma comparação.
Essa definição básica, colocada no parágrafo anterior, você encontrará em “manuais” acadêmicos ou escolares, virtualmente ou não, com muita facilidade. Porém, na nossa visão, tudo se origina de algo Maior ou Divino.
Vivemos sustentados por essências e energias que nos alimentam, movem e direcionam. Mas, isso não significa dizer que as definições até agora aqui colocadas estejam incorretas. Elas estão corretas, porém, não abarcam além daquilo que é visível ao olho “nu” humano e material.
Ainda assim, buscaremos um aprofundamento acerca desta nossa visão no próximo texto, pois, neste, queremos trazer uma reflexão acerca de um aspecto que nos levou ao título aqui colocado. O que seria uma metaforização da metáfora?
Se a metáfora é um transporte de sentido, conforme já compreendemos, a sua metaforização seria um transporte [ou mudança violenta] de sentido (uma trangressão, até mesmo) que a transforma numa mera embalagem que pouco ou nada reflete do seu conteúdo.
Muitas vezes, vemos pessoas tratando a metáfora como algo fictício e sem valor, retirando dela o conteúdo simbólico, representativo e tradutor de algo essencial e que, só por isso, está no cerne de algo.
Atualmente vemos, especialmente em redes sociais, discussões acerca da existência ou não de certos personagens históricos, até mesmo religiosos (ou importantes para certas tradições religiosas). E isso tem feito com que, infelizmente, as pessoas não atentem para as essências que nos são trazidas através das metáforas.
Por exemplo: discute-se muito se o Senhor Jesus Cristo realmente fez isso ou aquilo, busca-se datação histórica, comprovação arqueológica e antropológica. Na Filosofia, há quem discuta a existência ou não de Sócrates, afinal, esse ícone do pensamento humano não deixou escrito um fragmento sequer.
Ora, todas as figuras de linguagem usadas por esse filósofo (assim como, por tantos outros), bem como, todas as ações ditas como “milagrosas” realizadas pelo Senhor Jesus Cristo trazem um valor intrínseco, poderes e essências que, se bem interpretados, podem funcionar como ensinamentos valiosos e valorosos à nossa caminhada humana. E isso traz muito mais valor em si do que a ação literal ou seu contexto histórico/antropológico.
Quando um devoto cristão sobe um morro ou montanha, em sentido religioso, movido por orações, sua fé o move e a metáfora se realiza dentro dele. Há quem diga que o fato de esta pessoa sentir-se melhor, enlevada, após tal ação, seja um mero fator psicológico. Mas, não estamos aqui para falar acerca de pensamentos descrentes ou materialistas tampouco temos o objetivo de convencer ou converter quem assim pensa, não é mesmo?
Todos que aqui chegamos somos movidos pela Fé e é por intermédio dela que continuaremos a caminhar.
Mas, de que forma?
Ao subir a montanha, ele crê profundamente que aquela ação realizará uma mudança em seu espírito. Faz com fé e, certamente, não compreende que a ação divina, por intermédio de uma Ciência Maior ali se realiza, que potências divinas são acionadas por intermédio dos verbos e ações ativados nas suas orações (ou na sua oração), bem como, nas potências que o embeberam durante o caminho, advindas dos próprios elementos naturais que compunham aquela montanha durante a sua subida, bem como, também o ar. Trocando em miúdos: tudo ao seu redor é divino e contém em si tais potências, mas são acionados pela sua fé e por suas orações. Isso é movimentação da ciência divina [ou do conhecimento, da sabedoria de Deus ao nosso redor]
A metáfora se realizou quando todos os elementos dessa alquimia divina se transferiram para a sua fé e se realizaram independentemente do seu conhecimento acerca daquilo que ali acontecia.
Portanto, nós, umbandistas, concluímos que a metáfora não se encontra somente nas lendas acerca dos Orixás. Sim, elas realmente estão nestes contos fundamentais à compreensão da nossa fé. Vale conferir, na obra de Rubens Saraceni, os textos do livro Lendas da Criação – A Saga dos Orixás. Nele, encontramos lendas com fundamentação dos poderes divinos e, como o próprio autor nos diz (2020, P. 7): “Uma lenda, para ser classificada como tal, precisa estar ligada a leis da criação e a mistérios divinos pois, se ela não trouxer isso em si, não poderá receber essa classificação e será mais uma estória. Uma lenda tem de ter um fundamento por trás dela, senão é só mais um exercício de criação abstrata. O fundamento de uma lenda tem de estar nela e tem de ser descrito de uma forma que a torne uma fonte de revelações dos poderes e dos mistérios da criação manifestados pelos seres divinos, que por sua vez devem ser mais que um ser e mostrar-se como um poder manifestado pelo criador. Lendas são trasmitidas oralmente desde os primórdios da humanidade por todos os povos e, no passado longínquo, era o único recurso dos religiosos para transmitirem aos seus seguidores os mistérios da criação, que foram perpetuados até o surgimento da escrita e daí em diante passaram a ser guardadas, não mais correndo o risco de desaparecerem”.
Prosseguindo, a metáfora está nas lendas. Mas não somente nelas, está também nos símbolos e elementos utilizados nos trabalhos umbandistas. Porém, sobre esse aspecto falaremos no próximo texto.
E você nos questiona: – Mas, uma lenda pode trazer duzentas interpretações para duzentas pessoas diferentes, então, onde está a verdade por trás dela?
E nós respondemos: – A busca pela verdade deve partir do nosso interior com a consciência real das nossas limitações. A busca por um conhecimento de sentido das coisas com suspensão de juízo, ou seja, sem qualquer colocação de opinião ou preferência pessoal naquilo que é analisado, é fundamental para que tenhamos um compreensão, ao menos parcial.
Se entendemos que um ser divino realizou uma ação benéfica, devemos olhar para a essência daquela ação e não somente para ela em si. Um bom exercício para isso é você levar aquela ação para outros cenários, bem distintos mesmo e, quando as imagens lhe trouxerem conclusões ou resultados – por intermédio de raciocínio lógico – convincentes, você estará se aproximando da essência e a metáfora cumprindo sua função.
Vamos trabalhar para que não se concretize definitivamente a tal metaforização da metáfora, em que ela se esvaziará se transformando numa embalagem sem conteúdo. Afinal, sabemos, ela não é uma mera imagem fictícia ou inventada para maquiar algo, é um sentido (ou essência) transferido para facilitar a compreensão. E que seu sentido original se mantenha benéfico a nós e ao mundo, realizando o transporte de sentido transformador das nossas vidas e das nossas caminhadas.
No próximo texto, abordaremos a metáfora no contexto umbandista, para além das lendas.
Um saravá fraterno!
André Cozta
REFERÊNCIAS
– Boas Novas (2.54min) / 1988 / Ideologia.Cazuza – Phillips
– Metáfora https://www.todamateria.com.br/metafora/ – Prof. Daniela Diana – Consulta em 21 maio 2026
– Metáfora https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/metafora – Profa. Paula Mendes – Consulta em 21 maio 2026.
– ROCHA ALVES, Antonio Hélio https://periodicos.ufpi.br/index.php/pet/article/view/6334 . Cadernos do PET Filosofia UFPI – ISSN: 2176-5880 – Consulta em 21 maio 2026
– SARACENI, Rubens; 2020, P. 7. Lendas da Criação: A Saga dos Orixás. 2020- Madras
Link da imagem: https://brasilescola.uol.com.br/religiao/os-orixas.htm



