Certa feita (em um tempo que não temos como calcular), tudo e todos viviam em paz na Natureza. Isso fazia com que ela, a Grande Mãe — a Natureza — vibrasse seu amor e brilhasse com grande satisfação, percebendo que todos os seus filhos e suas filhas, das mais variadas espécies, viviam em paz, harmonia e com muito amor.
Sim, a Grande Mãe Natureza olhava para todos os seres, espécies e elementos que a compunham com ternura, exalando o seu amor e reinando em harmonia, direcionando o processo evolutivo que ia de vento em popa.
Porém, ela que, muito mais do que uma grande detentora de sabedoria, é, em si, a própria Sabedoria Soberana, sabia que, mais cedo ou mais tarde, algumas turbulências poderiam colocar em xeque a paz e a harmonia que ali reinavam.
E disso ela sabia, porque conhecia a fundo todos os seres e espécies em evolução.
Em dado momento, divergências começaram a acontecer. Seres e espécies queriam mais do que obtinham naquele momento, no espaço e no tempo, buscavam ampliar seus domínios e imperar sobre seus irmãos e irmãs.
E assim foi acontecendo:
- Os rios de águas claras buscaram se sobrepor aos de águas pretas, pois se sentiam e se intitulavam superiores; diziam serem aqueles — os de águas pretas — de uma espécie inferior e desnecessária. Isso despertou a fúria nos rios perenes, que buscaram se sobrepor aos intermitentes (ou temporários) e aos efêmeros. Não demorou para que os pluviais travassem batalhas mortais contra os glaciais, que, rapidamente, obtiveram apoio dos rios nivais e dos mistos, lutando contra os primeiros citados. Rios retilíneos, meandrantes, entrelaçados, anastomosados, exorreicos, endorreicos e arreicos adentraram a batalha, assumindo lados em uma luta que, em verdade, não sabiam por que ocorria;
- Ao saberem da guerra em curso, os mares resolveram adentrar a briga, demonstrando aos rios a superioridade que julgavam possuir. Porém, antes disso acontecer, iniciaram uma batalha interna, em que mares costeiros, mediterrâneos e isolados buscavam, cada um, suplantar os outros dois. Assim, uma guerra mundial (ou pentaoceânica) se iniciou;
- Cachoeiras, lagos, lagoas e córregos, perdidos e sem entender o que acontecia, foram assumindo posições naquela luta, sem muito discernimento, sempre movidos pelo instintivismo;
- Florestas tropicais, temperadas e boreais também aderiram à guerra e, seguindo a regra, iniciaram-na entre si;
- Montanhas, pedreiras, estepes e alvoradas, desnorteadas, foram aderindo àquela luta insana, movidas pelo emocionalismo;
Em dado momento, todos lutavam contra todos sem, de fato, entenderem o que os movia àquilo, pois, infelizmente, não olhavam para o íntimo e, portanto, não se compreendiam como partícipes de algo maior… a Grande Mãe Natureza que, entristecida, banhada em lágrimas, a tudo assistia (ainda que estivesse ciente de que a propulsão da ignorância fazia parte do aprendizado de todos os seus filhos e filhas).
Ainda assim, quando tudo aquilo ultrapassou o limite máximo, a Grande Mãe caiu em prantos, fazendo com que caísse uma chuva tão intensa que paralisou a tudo e a todos, separando-os e mantendo-os isolados em si próprios.
A partir daquele momento, todos passaram a viver isolados em seus “casulos” naturais, maquinando como fazer para invadir e adentrar os outros campos, dominando-os e imperando sobre tudo e todos.
Após a separação, no interior desses casulos, todos os seres e espécies que os habitavam (inclusive os ditos racionais) passaram a guerrear entre si, simultaneamente digladiando-se contra os seus semelhantes e tentando exterminar as demais espécies. Desse modo seguiu a caminhada da evolução…
Eis uma metáfora necessária. Que sirva para a sua reflexão!
André Cozta
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