Na literatura e nas artes audiovisuais, trama e enredo são componentes fundamentais. Enquanto o segundo citado se refere à sucessão cronológica dos acontecimentos (o que acontece), a trama é a organização desses eventos por relação de causa e efeito (o porquê acontece). Pode-se dizer que o enredo é o “esqueleto” ou a “coluna vertebral”, enquanto a trama é o mecanismo que move a história.
Trocando em miúdos, tecnicamente o enredo é que acontece (a linha do tempo), enquanto a trama é como esses eventos se conectam entre si.
Vamos entender seus significados e origens etimológicas:
- A palavra trama tem origem no latim trama, que significa “urdidura” ou “fio”. Originalmente, o termo designava o conjunto de fios transversais que o tecelão passa entre os fios esticados no tear para formar um tecido. Com o tempo, o vocábulo ganhou sentido figurado. A associação entre “tecer fios” e “construir uma narrativa” ou “planejar algo” deu origem aos significados atuais.
- A palavra enredo deriva do verbo enredar, ambos originados a partir do latim rete, que significa “rede”. O termo surgiu com a ideia de emaranhar ou envolver algo em uma malha de fios. Assim como uma rede de pesca prende e conduz os peixes, o enredo funciona como a “trama” de uma história, conectando personagens e eventos em uma sequência lógica.
Ainda que seus significados possuam semelhanças, é nas suas aplicações na literatura e no audiovisual que vemos, apesar da correlação existente, as sutis diferenças entre ambas as funções, ainda que, na prática do dia a dia os termos sejam usados como sinônimos para descrever os acontecimentos de uma história.
Pois, saiba que, na Umbanda, também há enredo e trama. É comum, muitas vezes, ouvirmos falar em “Enredo de Orixás”, mas, o quê, exatamente, isso nos mostra?
Vejamos o que nos diz o mestre Rubens Saraceni:
“O que é uma trama mediúnica e um enredo? A trama são as ligações do médium com forças e poderes espirituais, naturais e divinos. O conjunto dessas ligações é denominado por nós como uma trama. A trama refere-se aos guias espirituais dos médiuns. Muitos umbandistas desconhecem a existência de uma trama mediúnica, na qual ele está no seu centro. Saibam que é sua existência que dá sustentação e fundamenta a existência de tantos guias espirituais para um único médium. O mais lógico seria haver um só guia e ser sempre ele a incorporar e consultar as pessoas. Mas essa simplificação não é possível por causa da trama, que é uma rede de distribuição de forças, cada uma ligada a um Orixá e a um campo de trabalhos magístico-religiosos. Como as pessoas chegam aos centros com dificuldades as mais diversas, o melhor é o médium ter entre seus guias uma variedade de opções para que o que for mais indicado comece a auxiliar pessoas cujas dificuldades estejam localizadas no seu campo de trabalho.
Uma trama espiritual é algo complexo e não é possível fazer um organograma com a distribuição e a localização exata de cada um dos guias espirituais dos médiuns. Quem tentou algo nesse sentido acabou falhando em algum ponto, pois nem mesmo os guias tocam no assunto. Nem sempre o guia com o qual o médium tem mais afinidade é o ’chefe’ das suas forças espirituais.
Cada guia espiritual está ligado a um Orixá diferente e com isso a trama espiritual de um médium repete o seu enredo divino. O médium umbandista deve ir firmando seus guias na natureza, oferendando-os nos campos dos Orixás sempre que estes forem oferendados.
É bom que saibam que todo médium tem em sua trama um guia espiritual da direita para cada Orixá, ainda que só um assuma a frente ou a chefia dos trabalhos. A mesma regra aplica-se à esquerda dos médiuns e, ainda que só um Exu, uma Pombagira e um Exu Mirim se destaquem, há outros guias à esquerda, mas que não se identificam ou, quando o fazem, também se apresentam como “Exus”
[…]
A palavra enredo, quando aplicada às posições dos Orixás na coroa de um médium, tem o significado de distribuição. A posição ocupada por cada um cria toda uma estrutura de poder, assentada desde o primeiro plano da vida e vai até o sétimo, à frente do que vivemos e que é denominado por plano celestial da vida. Essa distribuição varia de pessoa para pessoa e dificilmente há uma repetição de enredos, pois, ele é o código de sustentação divina dos seres.
O enredo começa no Orixá ancestral e termina nos orixás naturais, cujas casas ocupadas nele obedecem aos estágios evolutivos já vencidos pelo médium.
O Orixá ancestral, o de frente e o adjunto [Nota nossa: “Juntó”] formam o triângulo de forças e poderes do médium e é o que ele precisa conhecer melhor. Quanto à distribuição dos outros Orixás, o enredo contempla essas distribuições: em cruz, em pentagrama, em hexagrama, em heptagrama, em octagrama. O heptagrama forma o Setenário Sagrado e deste saem as sete Linhas de Umbanda, com 14 Orixás assentados em seus polos regentes.” (SARACENI; 2009, P. 37- 39)
Vemos nessa conceituação, Saraceni nos explicar que possuímos um organograma divino (de Orixás – Poderes -) e um espiritual (de guias – forças).
Sabemos que os Orixás comandam a nossa vida espiritual e os guias, irradiados por eles(as), trabalhando sob suas ordenanças, atuam fortemente no nosso dia a dia, na nossa caminhada evolutiva.
Fazendo uma ligação dessas funções com os conceitos colocados no início deste texto, então, finalmente, podemos entender o que significa e como funcionam, concomitantemente, nosso enredo (de Orixás) e nossa trama (de guias espirituais), complementando-se e atuando harmoniosamente em prol da nossa evolução.
Vimos que o enredo é o que acontece, a coluna vertebral de uma história. Os Orixás são os reais responsáveis pelos nossos caminhos, portanto, o direcionamento do “roteiro” em nossa caminhada, será de sua responsabilidade.
Também vimos que a trama é a organização ou a execução de como tudo acontece na história, é o seu próprio mecanismo em funcionamento. Os guias espirituais, a serviço dos Orixás, sob sua ordenança – reiterando -, colocam o planejamento, tudo aquilo que foi pensado, em prática.
Compreendendo isso, passamos a enxergar melhor como se dá e se desenvolve o “roteiro” ou a história, que é, em si, a nossa caminhada.
Assim sendo, o(a) médium umbandista precisa refletir acerca dessa organização e de como ela se reflete em seu trabalho e em sua vida. Uma religião desorganizada deixa de sê-lo, pois a religiosidade e a religião são sinônimos de organização espiritual, ainda que os descrentes — ou até mesmo alguns religiosos desinformados — não compreendam isso.
Entendendo essa ordenação, o(a) médium umbandista perceberá que não há disputas entre guias espirituais da sua egrégora, ou entre Orixás, ou entre Orixás e guias. Pensar isso é, de algum modo, reproduzir ignorância. Trama e enredo são organismos que se complementam e funcionam em perfeita harmonia. E, assim funcionando, nos trarão o melhor direcionamento para cada passo a ser dado.
Buscamos, neste texto, por analogia, trazer uma compreensão clara de como funcionam trama e enredo na coroa mediúnica umbandista. A partir disso, sugerimos que você supere todos os tabus e dogmas prejudiciais ao bom andamento da sua vida espiritual.
Um saravá fraterno!
André Cozta
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
https://brasilescola.uol.com.br/redacao/construcao-enredo.htm Consulta em 23 Julho 2026
https://www.youtube.com/watch?v=KT-X_LwFZIA Consulta em 23 Julho 2026
SARACENI, Rubens; 2009. Rituais Umbandistas: oferendas, firmezas e assentamentos. São Paulo. Madras.
Link da imagem:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Trama_%28tecelagem%29#/media/Ficheiro:Satin_weave_in_silk_90.jpg



