ESTÉTICA DA SIMPLICIDADE

    

 

A palavra estética tem origem no termo grego aisthésis, que significa percepção, sensação ou sensibilidade. Esse termo foi introduzido na filosofia no século XVIII por Alexander Baumgartem, filósofo alemão, a fim de designar uma ciência do conhecimento sensorial ou um estudo do belo e da sensibilidade.

No nosso dia a dia, utilizamo-nos do termo ou do conceito de estética a fim de defnirmos ou classificarmos tudo aquilo que relacionamos à beleza ou à ausência dela. Na sua Crítica do Juízo, Kant definiu belo e sublime não como propriedades físicas dos objetos, mas como sentimentos subjetivos que surgem no sujeito ao contemplar a natureza ou a arte. Trocando em miúdos: o padrão estético passa pelo gosto de cada pessoa. Algo que agrada alguém pode não agradar a outrem.

Ainda assim, vivemos numa sociedade que define padrões estéticos e classifica o que é belo ou não. Na maioria das vezes, tais classificações são definitivas, ditando padrões que têm [infelizmente] o preconceito como sua base.

A Umbanda, enquanto religião, possui, nas suas manifestações, sua estética própria e peculiar. Ela se mostra  nos altares, nas imagens, nos elementos utilizados, nas vestimentas e tudo o mais que compõe o nosso ritual. Porém, neste texto, não é nossa intenção realizar um aprofundamento nessa análise estética; faremos isso futuramente.

Aqui, nossa intenção é outra.

Simplicidade é a qualidade daquilo que é natural, simples, livre de complicações, luxo ou afetações. Demonstra clareza, sinceridade, sempre focando no que é essencial, deixando de lado tudo o que for supérfluo.

Porém, simplicidade não é simplismo, pois, esse tende a simplificar excessivamente questões complexas, reduzindo-as a apenas um aspecto. Pode [o simplismo] ser ingênuo, reducionista e empobrecedor da comunicação e do entendimento, dificultando a clareza da compreensão dos fatos.

O minimalismo foca em simplificar a existência, reduzindo o excesso material e o acúmulo de tarefas, buscando sempre priorizar o essencial.

No século passado, surgiram movimentos artísticos, científicos e culturals preocupados em fazer uso de poucos elementos nas suas manifestações, aplicando-se, assim, a filosofia do “menos é mais”.

O minimalismo pode ser uma ferramenta eficaz para que se possa chegar à simplicidade, mas, não necessariamente, uma manifestação simples será minimalista. Por exemplo: um templo umbandista pode apresentar uma estética simples a partir de poucos elementos em seu altar e no seu espaço em geral, mas também pode haver um terreiro  preenchido com uma variedade enorme de elementos estéticos, porém, sem luxo, grandes ornamentações ou ostentação.

Com tais conceitos apresentados, vamos ao nosso objetivo.

A partir do aprimoramento da comunicação entre as pessoas, promovido pela tecnologia, especialmente, pelas redes sociais, no momento em que podemos acessar a tudo, a qualquer hora, de onde estivermos, por meio do aparelho de telefone celular, tudo se tornou, se não mais globalizado, mais acelerado nesse processo de globalização e, se compararmos com uma ou duas décadas anteriores à atual, o acesso é praticamente “instantâneo”.

Assim sendo, “regras e leis” surgem por intermédio do julgamento e da conveniência ao senso comum. Tudo precisa ser mostrado e, invariavelmente, espetacularizado. E isso tem ocorrido em todos os setores da nossa vida social, não sendo diferente nas mais diversas manifestações religiosas.

Há pouco, responsabilizávamos a televisão pela banalização de conteúdos, conceitos e essências. Hoje em dia, essa trivialização vem sendo acelerada por nós mesmos, não somente quando ligamos o aparelho de tv, mas, quando acessamos aquele pequeno aparelho celular que nos acompanha, inclusive, nos momentos mais íntimos.

Tudo isso vem fazendo com que, cada vez mais, as pessoas queiram se mostrar e, concomitantemente, consumir produtos, eventos, religiões esteticamente pomposos. Tudo precisa ser espetacular!

Ora, a Umbanda é uma religião natural, porque manifesta a Natureza Divina aos seus adeptos e se manifesta a eles por intermédio Dela. É também uma religião popular aberta a todos e à todas as classes e estratos sociais, apresentando-se a partir de arquétipos que manifestam a cultura do povo brasileiro. E é por intermédio desses tipos simbólicos populares que os poderes divinos [e da Natureza Mãe] chegam até nós.

A nossa religião se baseia em uma ancestralidade que vem das senzalas, das tribos nativas do nosso território, dos quilombos (africanos e brasileiros), dos clãs ciganos, das manifestações espíritualistas e religiosas populares. Portanto, uma religiosidade elitizada não condiz com a origem, a raiz e a essência da nossa Umbanda. Ela, enquanto religião, está aberta a todos e à todas, isso é certo, mas, quem aqui chega, deve ter noção de que está pisando em terra de preto,  de índio, de caboclo, de cigano e de mestiço brasileiro. E, também, é fundamental saber que é nesse chão que se manifesta a Sabedoria Maior.

Particularmente,  cresci vendo a manifestação umbandista na periferia da cidade onde me formei como cidadão, sendo praticada por pessoas simples e que, com fé, amor, reverência, devoção e entrega, dentro das suas possibilidades, serviam a Deus, aos Pais e às Mães Orixás e aos guias espirituais nos trazendo exemplos de conduta e de vida.

Atualmente, vemos uma estética de ostentação, de discriminação, de afastamento do que há de mais essencial, mais “raiz” dentro da Umbanda, por meio de uma apresentação  que, definitivamente, não combina com a alma da religião na qual cresci e, certamente, morrerei como adepto e trabalhador.

Não há nada mais triste para um umbandista que beira à terceira idade do que ver o escárnio tomar o lugar da fé e do amor.

Porém, Orixás e entidades não dormem. Há, ainda, graças ao Grande Pai e à Grande Mãe, manifestações da nossa religião que mantêm a estética da simplicidade em seus trabalhos. Afinal, sabemos, uma estética manifesta uma essência e, parafraseando Aristóteles – na sua Metafísica -, Deus é simples. Então, por que aquilo que manifesta o que Dele ou Dela advém, não o será?

Porém, talvez você não  encontre tais manifestações simples nas plataformas e redes sociais. Ou, talvez até encontre, mas precisará procurar muito, pois, geram pouco engajamento. E isso já nos diz muito!

Procure, se necessário, no boca a boca.

Se vale uma dica ou conselho, busque, na Umbanda, a estética da simplicidade, pois, será nela que você encontrará a essência, a alma e o mais pleno espírito natural, divino e espiritual manifestado.

 

Um saravá fraterno!

André Cozta

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS

https://pt.wikipedia.org/wiki/Minimalismo Consulta em 06abril2026

https://pt.wikipedia.org/wiki/Est%C3%A9tica Consulta em 06abril2026

https://pt.wikipedia.org/wiki/Cr%C3%ADtica_do_Julgamento Consulta em 06abril2026

https://languages.oup.com/google-dictionary-pt/ Consulta em 06abril2026

ARISTÓTELES. Metafísica. 2012. Edipro. Trad: Edson Bini

 

Link da imagem: https://culturadapaz.com.br/a-simplicidade-na-arte-do-educar/

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