Ao longo do tempo, tenho percebido que a relação da fé religiosa com o feminino é um tanto quanto controversa, pois, a nossa interação com o Sagrado ainda é guiada por conceitos fundamentados no nosso machismo cultural e sistêmico.
Como umbandista, percebo que, na nossa religião, isso se reflete muito fortemente, ainda e infelizmente, apesar de formarmos um contexto religioso amplamente dominado e controlado pelo feminino na sua manifestação material (basta percebermos a maior quantidade de médiuns mulheres e sacerdotisas, bem como, nas assistências nos centros umbandistas) e com um protagonismo ímpar na manifestação divina ([Orixás] Mães Geradoras – ou Yabás -), bem como, na manifestação espiritual (pretas-velhas, caboclas, pombagiras, ciganas, baianas, boiadeiras, marinheiras, sereias, erês femininos etc.).
Por isso, trago uma análise crítica – fundamentada em nossos estudos e pesquisas -, em dois textos que aqui estamos publicando.
Obviamente, o pensamento machista não foi criado dentro da Umbanda ou de nenhuma das outras religiões naturais brasileiras cultuadoras dos Orixás, mas tem sido uma herança clara, advinda das mais diversas formas de pensamento religioso ancestrais e que viam a divindade predominantemente masculina (Deus) em detrimento de uma divindade feminina (Deusa).
Na cultura judaico-cristã, tão presente na nossa realidade brasileira quanto o ar que respiramos (cito isso de forma análoga e metaforicamente), esse aspecto de suplantação da divindade feminina se mostra de forma muito clara. Por isso, para chegarmos à análise desse problema no seio umbandista, começaremos reflexionando acerca do pensamento, nesse aspecto, de um importante filósofo judeu antigo [um dos precursores do neoplatonismo].
Segundo o prof. Anderson Pinho, Fílon de Alexandria (20 a.C – 50 d.C) foi um judeu helenizado também chamado de Fílon, o Judeu. Seu pensamento abrange duas culturas, o grego e o hebraico, produzindo uma síntese de ambas as tradições desenvolvendo conceitos para uma futura interpretação helenística do pensamento hebraico messiânico. Ele exerce influência sobre Paulo, seu contemporâneo e, provavelmente, também sobre autores do Evangelho de João e da Epístola para os Hebreus. Lançou as bases para o desenvolvimento do cristianismo no Ocidente e no Oriente, como o conhecemos hoje. Sua principal influência está no desenvolvimento dos fundamentos filosóficos e teológicos do cristianismo. Já a tradição judaica não estava interessada na especulação filosófica e não preservava o pensamento de Fílon. (O Guia Definitivo da Filosofia – P. 464-465).
No que se refere ao seu sincretismo entre a revelação bíblica [hebraica] e o pensamento filosófico grego antigo, Fílon de Alexandria considerava que a filosofia grega era um caminho para a verdade, que se complementava com a revelação judaica, vendo Moisés como a fonte primordial da sabedoria que foi, mais tarde, seguida e desenvolvida pelos filósofos gregos. Ele buscou conciliar o pensamento grego, especialmente o platonismo, com a fé judaica, considerando que as ideias filosóficas e a verdade bíblica convergiam em diversos pontos. (Fonte: I.A Google)
Agora, buscando compreender o que nos interessa no seu pensamento filosófico e teológico, vejamos o que Fílon nos traz no que se refere ao Maná Nutritivo da Alma e Sabedoria. Em tempo, conforme o dicionário do Google: “Maná: Alimento que, segundo a Bíblia, foi miraculosamente fornecido aos israelitas em sua travessia do deserto [Poderia tratar-se das concreções doces da exsudação dos troncos dessas árvores, de um líquen do deserto levado pelos ventos ou mesmo de nuvens de gafanhotos.].”
Assim nos diz o prof. Anderson Pinho:
Deus envia “a corrente” de sua Sabedoria que irriga as almas que
amam a Deus; consequentemente, eles ficam cheios de “maná”. O maná é
descrito por Fílon como uma “coisa genérica” vinda de Deus. Não vem
diretamente de Deus, no entanto: “o mais genérico é Deus, e o próximo é
o Logos de Deus, as outras coisas subsistem apenas na palavra (Logos)”
[…]
De acordo com Fílon, Moisés chamou o maná de “o mais antigo
Logos de Deus […]”. Em seguida, Fílon explica que os homens são
“nutridos por toda a palavra (Logos) de Deus, e por cada parte dela…
Consequentemente, a alma do homem mais perfeito é nutrida por
toda a palavra (Logos); mas devemos nos contentar se formos alimentados
por uma porção dela” […]. E “a Sabedoria de Deus, que é a
enfermeira, mãe adotiva e educadora daqueles que desejam alimento
incorruptível… imediatamente fornece alimento para aqueles que são
gerados por ela… uma corrente mais suave e moderada, e em outra com
maior rapidez e uma violência e impetuosidade mais excessivas […]
Esta Sabedoria como Filha de Deus “obteve uma natureza intacta e
imaculada, tanto por causa de sua própria propriedade quanto pela
dignidade daquele que a gerou”. Tendo identificado o Logos com a
Sabedoria, Fílon se depara com um problema gramatical: na língua grega
“sabedoria” (sophia) é feminino e “palavra” (logos) é masculino; além disso,
Fílon via a função da Sabedoria como masculina. Então ele explica que o
nome da Sabedoria é feminino, mas sua natureza é masculina:
De fato, todas as virtudes têm designações femininas, mas poderes e
atividades de homens verdadeiramente perfeitos. Pois o que vem
depois de Deus, mesmo que fosse o mais venerável de todos os
outros, ocupa o segundo lugar e foi chamado de feminino em
contraste com o Criador do universo, que é masculino, e de acordo
com sua semelhança com tudo o mais. Pois o feminino sempre fica
aquém e é inferior ao masculino, que tem prioridade.
Não prestemos atenção à discrepância nos termos e digamos que a filha de Deus, a Sabedoria, é tanto masculina quanto pai, inseminando e gerando nas
almas o desejo de aprender disciplina, conhecimento, discernimento
prático, ações notáveis e louváveis […]
A Sabedoria, a Filha de Deus, é na realidade masculina porque os
poderes têm descrições verdadeiramente masculinas, enquanto as virtudes
são femininas. Aquilo que está em segundo lugar depois do Criador
masculino foi chamado feminino, de acordo com Philo, mas sua prioridade
é masculina; então a Sabedoria de Deus é tanto masculina quanto feminina […]
A sabedoria flui do Logos Divino […]. O Logos é o copeiro de Deus. Ele se derrama em almas felizes […] A parte imortal da alma vem do sopro divino do Pai/Regente como parte de seu
Logos (O Guia Definitivo da Filosofia – P. 497-499)
A partir desse excerto, podemos perceber claramente o nosso objeto de análise e crítica.
Ora, o que aqui está descrito, todos vemos e percebemos, na prática, diuturnamente: a concepção de um Deus masculino.
Claramente, o filósofo analisado se encontra em uma encruzilhada, quando percebe aspectos/qualidades femininas da Divindade e busca, de modo engenhoso, realizar uma reforma, como um engenheiro que tenta fazer modificações no quadro urbano de uma determinada localidade a fim de adequá-lo à sua forma equivocada de compreendê-lo e defini-lo.
O que percebemos no trecho aqui colocado, é um pensador filosófico e teólogo que tenta rearrumar as coisas sem conseguir ocultá-las, pois, para obter tal êxito, deveria criar um “autômato”, um “robô”, algo que seria claramente artificial e, portanto, filosoficamente e teologicamente inconsistente.
Porém, o objetivo nesta análise crítica não é julgar o pensamento desse ou de qualquer outro filósofo. Este foi aqui citado única e exclusivamente para que tivéssemos uma base, um solo para o desenvolvimento da nossa crítica, que se inicia neste texto e se estenderá ao próximo, em sequência crítica de pensamento.
Se, percebemos que a suplantação da divindade ao machismo deste nosso mundo é algo antigo, que vem acompanhando a humanidade, também podemos dizer que esse aspecto chega a nós aliado ao processo de antropomorfização do Sagrado e tem como ponto de partida o preconceituoso sistema machista, que coloca o feminino como algo inferior, servil e, muitas vezes, maléfico ao desenvolvimento humano.
Ora, olhemos para a vida humana e para a vida animal ao nosso redor e perceberemos, claramente, o quão é fundamental o feminino para a vida, não só na concepção e na geração, mas no seu desenvolvimento. E, se assim o é, na base da pirâmide, significa que é um reflexo daquilo que vem do Alto e nos é superior, ou seja, que advém da Divindade.
Assim sendo, e esclarecendo que nossa crítica não visa inverter o pensamento ignorante, ou seja, colocar o Sagrado Feminino como superior ao masculino, afirmamos que a Divindade Original gera Em Si tais vibrações (masculina e feminina) de modo concomitante e que nenhuma se sobrepõe à outra. E, se gera em si, naturalmente, gera e manifesta De Si.
Mas, o que significa gerar em si e de si? Vejamos o que nos diz Rubens Saraceni:
[…] Saibam que Deus, ao gerar em Si suas divindades, procede como um corpo humano que tem na multiplicação celular sua formação. Então Deus, quando gera em Si uma de suas divindades, age como uma célula que, pela cissiparidade, multiplica-se na nova célula gerada, que é igual em tudo à que a gerou.
Deus, ao gerar uma divindade, a gera nessa Sua qualidade e terá nela uma multiplicação e uma repetição dessa Sua qualidade, que é viva e divina e traz em si a força e o poder de realização de quem multiplicou-Se e repetiu-Se nela: Deus!
Já quando Deus gera de Si, então o que ele gerar se realizará por sua natureza divina, que distinguirá cada coisa ou ser com uma qualidade natural, só sua e intransferível, pois essa Sua geração não traz em si a força e o poder de autorrealizar-se e multiplicar-se.
Nós, os espíritos, não nos autorrealizamos, não temos a capacidade de nos multiplicar a partir de nós mesmos. Já uma divindade, gerada em Deus, se multiplica e se repete nas suas próprias hierarquias divinas. E se nós nos colocarmos sob a irradiação direta ou vertical de uma, então ela se multiplicará e se repetirá em nós, amoldando nosso caráter segundo o dela, que é divino, e remodelando nossos sentimentos segundo os que sua qualidade divina desperta em nosso íntimo.
Saibam que assim como Deus tanto gera em Si quanto gera de Si, as divindades também o repetem e o multiplicam, e a qualidade divina, que elas são em si, tanto as geram em si como as geram de si… na natureza e no íntimo dos seres que se colocam sob suas irradiações diretas ou verticais.
[…]
Os orixás são identificados como divindades regentes da natureza justamente porque regem os seres, as espécies e as criaturas que foram geradas por Deus, mas germinarão e crescerão na Sua natureza divina.
Muitos creem que os orixás só regem sobre a natureza física, mas estão enganados, porque eles regem sobre todas as naturezas ou sobre a natureza de tudo o que existe, seja animado ou inanimado. A natureza qualifica a criação divina e as suas criações, e os orixás são associados a tudo o que Deus criou e a todos os seres.
Logo, não estamos descrevendo os orixás e renovando os conceitos sobre eles a partir de algo abstrato, mas sim concreto, sensível e palpável: nós mesmos! […] (SARACENI, 2002, p. 86-87)
Esse ensinamento, a nós trazido na literatura do Mestre Saraceni, é mais uma comprovação teórica, mas também espiritual (por ter sido inspirada por Mestres da Luz e do Saber) que corrobora, comprova e nos leva à conclusão de que uma crítica mais consistente precisa ser realizada e praticada, por nós, umbandistas, no dia a dia da nossa lida religiosa, mas também, no nosso cotidiano.
Conforme esse mesmo autor [Rubens Saraceni], descreve no seu livro Gênese Divina de Umbanda Sagrada (2008; P. 26-27):
[…] Tal como acontece durante a fecundação do óvulo pelo espermatozóide e toda uma cadeia geradora é formada e ativada, o mesmo ocorreu quando um ser divino (o Trono das Sete Encruzilhadas) magnetizou-se e se polarizou dentro do ventre da Mãe Geradora (a natureza cósmica de Deus). Então, criou-se um magnetismo novo que, tal como um feto, começou a absorver os nutrientes da Mãe Geradora (o Cosmo). O feto alimenta-se de sua mãe e o mesmo fez o Divino Trono das Sete Encruzilhadas e sua parte geradora, que é uma individualização da parte feminina do Divino Criador (a Natureza) […] Com isso dito, saibam que o divino Trono das Sete Encruzilhadas é o magnetismo que sustenta a existência do planeta em suas muitas dimensões. Já a sua contraparte natural é a individualização e repetição “localizada” da natureza cósmica de Deus ou de Sua parte feminina, que é um ventre gerador de vida. Na criação divina (a gênese das coisas) tudo se repete e se multiplica. Tudo que está acontecendo aqui e agora, em outro nível dentro de um grau da escala magnética divina, já aconteceu antes. Ou seja: o que antes aconteceu em uma macro escala hoje ocorre em um grau dessa mesma escala, amanhã acontecerá em um nível e depois de amanhã acontecerá em um subnível. E assim sucessivamente, bastando guardar as proporções das repetições e multiplicações, a célula-mãe se repete e se multiplica nas suas células filhas. Saibam que na gênese de um corpo humano, ao par da herança genética dos pais, o espermatozoide tem um magnetismo análogo ao do divino Trono das Sete Encruzilhadas que atrai as energias (nutrientes), enquanto o magnetismo do óvulo é análogo ao da mãe geradora (cosmos) que vai agregando e distribuindo os nutrientes, segundo um código preestabelecido. Esta é a razão de todos os planetas serem “redondos”. Eles são formados dentro de um tipo de magnetismo ovalado (de óvulo ou ovo). Nesse magnetismo planetário, os eixos são do divino Trono das Sete Encruzilhadas. Já o magnetismo que os reveste e retém em cada camada os elementos, este é o da Divina Mãe Geradora, ou sua natureza divina. Só quando esses dois magnetismos se fundem surge algo, tal como só quando o macho se une com a fêmea (cópula) uma nova vida é gerada. Ele tanto é o macho quanto é a fêmea. Mas quando se individualiza, aí assume a Sua qualidade e biparte-Se em ativo e passivo, positivo e negativo, irradiante e absorvente, macho e fêmea. E foi o que aqui na Terra aconteceu, porque da união magnética do divino Trono das Sete Encruzilhadas com a Mãe Natureza [grifo nosso] surgiu um planeta magnífico e único no nosso sistema solar […]
Esclarecedora, didática e direcionadora essa explicação “acadêmica”. Esta obra de Saraceni nos propicia uma reflexão transmutadora de todos os nossos preconceitos e pontos de vista previamente e culturalmente estabelecidos.
Ainda que este autor, que nos demonstra e esclarece tal aspecto da Divindade, não consiga retirar o predomínio masculino culturalmente determinado, na própria terminologia (refiro-me a citar aspectos masculino e feminino de uma Fonte Original, ainda definida por um termo masculino – Deus -), é de extrema importância que nos utilizemos desse conhecimento para a reflexão aqui proposta.
Buscaremos um aprofundamento maior na segunda parte deste texto, quando traremos a crítica para o nosso dia a dia, especialmente, nas lidas religiosas umbandistas.
Um saravá fraterno!
André Cozta
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
I.A Google – Consulta em 24set. 2025
PINHO, Anderson. O Guia Definitivo da Filosofia. www.filosofiatotal.com.br
SARACENI, Rubens; 2002, Orixás: Teogonia de Umbanda – São Paulo – Madras
SARACENI, Rubens; 2008. Gênese Divina de Umbanda Sagrada: O Livro dos Tronos de Deus – A Ciência Divina Revelada. São Paulo – Madras
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