Para filósofos como Platão, Agostinho de Hipona e René Descartes, a nossa mente nasce com conhecimentos prévios ou ideias inatas. Trocando em miúdos, há algum outro lugar ou dimensão metafísica em que adquirimos conhecimentos. Para Platão, tal habitat seria o mundo das ideias. Podemos dizer que, na psicologia analítica de Jung, esse lugar seria o inconsciente coletivo.
Portanto, para tais pensadores, a ideia de uma tábula rasa, desenvolvida no âmago do pensamento empirista de John Locke, seria um absurdo, um total contrassenso.
Alguns filósofos exploraram essa ideia. Aristóteles, na antiguidade clássica, utilizou a metáfora de uma tábua de cera onde nada foi escrito; Avicena (no final do século X e início do XI E.C), também explorou essa ideia; Ibn Tufail (no século XII E.C) ilustrou tal conceito em sua obra Hai Ebn Yokdhan (traduzido do árabe como Filho Vivo de Desperto ou O Filósofo Autodidata)
Mas foi Locke, um filósofo empirista inglês, no século XVII E.C, que manteve esse conceito de tábula rasa como central na sua filosofia. Para ele, ao nascermos, a mente humana é como uma folha em branco, desprovida de ideias inatas. Ele afirma, na sua obra Ensaio sobre o entendimento humano (1689 E.C), que todo conhecimento é adquirido através de experiências sensoriais.
Portanto, para ele, é no aprendizado que absorvemos os nossos conhecimentos, é a experiência e o ambiente que moldam nossas crenças e a nossa personalidade. Seu foco é epistemológico e afirma, fundamentalmente, que somos forjados pela forma como conhecemos as coisas.
No século passado, Jean Paul Sartre fundamentou o seu existencialismo na afirmação de que a existência precede a essência. É um pensamento ateísta. Diga-se de passagem, ambas as ideias aqui citadas têm base e foco puramente materialistas.
O filósofo francês argumenta, com tal afirmação, que não há uma regra, um “manual de instruções”, tampouco uma natureza humana pré-determinada por uma divindade criadora. Para ele, somos livres e responsáveis pela construção da nossa própria essência, afirmando que o ser humano está condenado a ser livre.
Seu foco é ontológico (inerente ao ser) / ético pelo fato de direcionar para o que somos ou o que nos tornamos a partir de nós mesmos, da nossa experiência, das nossas escolhas na vida, a partir da nossa liberdade.
Podemos concordar ou discordar de suas afirmações, mas, também é preciso que as analisemos dentro do contexto em que foram apresentadas e desenvolvidas.
Se nós, teístas, compreendendo que há uma Divindade Maior Criadora e Sustentadora de tudo, suspendermos o juízo e entendermos que ambos os pensadores, independentemente de suas crenças, direcionaram suas “câmeras” para o “filme” da vida na matéria, cabe nos questionarmos se estavam completamente, parcialmente ou não equivocados.
Então, vejamos, a partir daqui, como podemos analisar esses pensamentos.
Todos nós, teístas (sendo, agora, provocativamente redundante), principalmente, os espiritualistas, os místicos e, especialmente, no nosso caso e de todos aqueles que nos acompanham, umbandistas, sabemos que há uma essência primeira, uma centelha criada pela Divindade Maior, Pai Criador/Mãe Geradora, popularmente conhecida como Deus Pai (mas que é, concomitantemente, em Si Mesmo[a], também Deusa Mãe). Ela é, enquanto primeira esfera ou estrela, a nossa essência básica e fundamental.
Em um longo e infinito processo evolutivo, ela vai se desenvolvendo [a centelha-essência] até chegar ao estágio espiritual em que o espírito essencial assume a forma humana que conhecemos e serve como molde, inclusive, para o corpo material, ou, melhor dizendo, para os corpos materiais que habitaremos em nossas inúmeras experiências na carne.
Esse corpo espiritual é portador da centelha, bem como, veículo dela para além das vivências na matéria, em todas todas as experiências espirituais que viveremos dentro do longo processo evolutivo, nos diversos níveis da dimensão humana, até que, novamente como seres mentais, já liberados da forma “moldada” desse corpo sutil humano, passemos a manifestar a Divindade como dita o processo criado pela Inteligência Maior.
Trocando em miúdos: temos um corpo espiritual que molda e sustenta o corpo material. Quando nos desvencilhamos da matéria, esse corpo sutil prossegue vivendo e evoluindo em realidades condizentes com o seu padrão vibratório.
Se o corpo do espírito sustenta o da matéria, enquanto aqui estamos, a centelha-essência é a base sustentadora de tudo. É imortal, nunca se apaga ou morre. Ela fundamenta o que somos, de fato, mentais originados na Divindade Maior, desenvolvendo potencialidades e evoluindo numa caminhada infinita.
Assim sendo, prontamente refutaremos as afirmações de Locke e Sartre, correto? Me antecipo na resposta: Não exatamente!
Por que, se todos sabemos que vivemos num vaivém evolutivo dentro de um ciclo reencarnatório, um verdadeiro processo dialético em que o espírito encarna, inicia uma etapa temporária na matéria, vive experiências, purga negativismos (ao menos, esse é um dos objetivos), cresce, evolui galgando alguns degraus, desencarna, retornando aos níveis espirituais em que, durante um novo período determinado pela Lei Maior, vive novas experiências, até que reencarne e volte a mais uma etapa em seu dialético processo evolutivo na carne [isso ocorre em um sem-número de vezes, talvez milhares], precisamos, para que tenhamos uma análise precisa (ou, ao menos, mais aproximada da precisão), buscar compreender ambas as afirmações dos filósofos dentro do campo de análise deles, ou seja, na vida material.
Relembrando: somos centelhas no início da evolução, espíritos-essenciais, na verdade. Agora, vivemos uma experiência dialético-evolutiva-reencarnatória como almas que, ora evoluem habitando o corpo carnal, ora evoluem no mundo espiritual. Em suma, a tal centelha-essência é a nossa origem enquanto mentais originados pela Divindade Maior, é o motor da nossa vida eterna.
Então, agora já podemos afirmar que Sartre e Locke estão completamente – ou parcialmente, ao menos – equivocados?
Faz-se necessário (para que tenhamos uma análise que chegue perto da precisão tão almejada) considerarmos que, na matéria, por vontade da Lei Maior e para que possamos cumprir a contento a nossa etapa evolutiva por aqui, temos a nossa memória eterna e imortal adormecida por um mistério de nossa Mãe da Evolução, a Senhora Nanã Buruquê – como nos afirma Rubens Saraceni em sua vasta fundamentação teológica -. E isso acontece, exatamente para que, durante o nosso curto período por aqui, possamos cumprir com o nosso propósito sem perturbação, ansiedade e/ou outras sensações que poderiam nos atrapalhar durante a caminhada material, até mesmo nos adoecendo no corpo, na alma e na mente.
Portanto, ambos os filósofos aqui analisados, ainda que se encontrem rotundamente equivocados quando afirmam não haver essência alguma em nós, estão parcialmente corretos, ao menos no que se refere à nossa evolução na vida material.
Você percebe que, quando analisamos com método e suspensão de juízo, evitamos julgamentos radicais e encontramos respostas muito mais claras?
Ora, nascemos, crescemos e vivemos trazendo em nós potências positivas, construtivas, mas também desenvolvemos algumas negativas durante a caminhada, que nos vêm atrapalhando dentro do processo.
Se podemos dizer que a existência não precede a essência, mas que a essência é algo criado por nossa Origem Divina lá no início, devemos afirmar que a existência na experiência material é uma oportunidade ímpar [com a memória imortal temporariamente adormecida] para nos purificarmos e, consequentemente, manifestarmos o que há de melhor e mais positivo em nosso ser essencial.
E, nessa experiência carnal, quando temos a memória adormecida para um melhor cumprimento da etapa, recebemos uma tábula rasa (eu diria, um caderno novo) para que possamos reescrever a nossa caminhada a partir de experiências enriquecedoras que, de fato, não criarão em nós uma essência, mas que farão com que a nossa própria, de origem divina, aflore da melhor forma possível.
Cabe a nós aceitarmos e aproveitarmos a oportunidade e o desafio, afinal, a vida eterna vale a pena e é o maior presente a nós dado por nossa(o) Mãe/Pai.
De algum modo, Locke e Sartre nos trazem contribuições importantes para que possamos refletir e aplicá-las em nossas caminhadas na matéria. Com certeza, a partir disso, nos tornaremos espíritos melhores numa etapa mais sutil da vida.
Um saravá fraterno!
André Cozta
Link da imagem: https://conceito.de/tabula-rasa



