SOBRE A DIVINDADE FEMININA II

 

Agora, dando continuidade à nossa reflexão, vamos entender como ela se dá e se mostra na manifestação teológica e litúrgica no seio umbandista.

No texto anterior, em que introduzimos o assunto acerca da manifestação da Divindade Feminina ao longo da história, na religiosidade humana, compreendemos que, como no processo de antropomorfização [ou de humanização do sagrado, quando transferimos para a Divindade nossas mazelas humanas], acabamos reproduzindo nela, de modo geral, o machismo cultural, histórico, sistêmico e estrutural, chegando, a partir de certo ponto, até mesmo, às raias da misoginia.  E esse é um movimento perigoso!

Na Umbanda, infelizmente, isso se repete e se mostra na interpretação equivocada de muitos de seus adeptos e adeptas, movidos(as) por preconceitos socioculturais que acabam se reproduzindo no nosso meio religioso. Infelizmente, não se apercebem essas pessoas que uma escola evolutiva, como é a religião umbandista, nos traz em todas as suas manifestações ensinamentos para que a nossa caminhada espiritual (na matéria e no seu prosseguimento após esse estágio) ocorra livre das amarras do preconceito e da ignorância.

Então, ainda que prossigamos definindo nossa Origem Maior e Divina [que é masculina e feminina em Si] como Deus, Olorum – ou Olodumaré – ou Zambi [todos eles, nomes masculinos], precisamos entender e sentir [tarefa simples para quem vive cotidianamente a Umbanda] a força e o predomínio do feminino na nossa religião.

Ora, as Mães Geradoras, nossas Senhoras Orixás, estão presentes em todos os campos, pontificam todas as sete linhas. Além disso, temos uma série de linhas espirituais de trabalhos femininas.

Refiro-me às mais cultuadas, como Caboclas, Pretas-Velhas, Ciganas e Pombagiras, assim como a Malandras, Pombagiras-Mirins e Baianas, mas também a linhas pouco cultuadas – e até desconhecidas por muitos – como, por exemplo: Boiadeiras, Marinheiras [ou Pescadoras], Cangaceiras, Médicas do astral superior, Caboclinhas [Curumins femininas, encantadas].

E, como todas as linhas espirituais estão sob a égide, a irradiação e a fundamental sustentação de linhas divinas ou de Divindades (Orixás), essas manifestadoras, enquanto entidades femininas são sustentadas por Orixás femininos.

Então, vejamos: as Pretas-Velhas estão sob irradiação de Mãe Nanã Buruquê, as Caboclas e Caboclinhas estão sob irradiação de Mãe Obá e Mãe Jurema, as Ciganas estão sob irradiação de Mãe Oiá-Tempo e Mãe Oro Iná, as Pombagiras estão sob irradiação da Senhora Mãe Pombagira, as Boiadeiras estão sob irradiação de Mãe Oiá-Tempo (Logunã), as Malandras sob irradiação de Mãe Iansã, as Pombagiras-Mirins estão sob irradiação da Senhora Orixá Pombagira-Mirim, as Marinheiras estão sob irradiação de Mãe Iemanjá – também destacamos as Sereias (encantadas femininas das águas), as Médicas do astral estão sob irradiação das sete Orixás femininas, com destaque para Mãe Logunã (Oiá-Tempo).

 

Também é fundamental destacarmos dois aspectos:

 

  • Aprendemos que Pai Oxalá (Pontificador da Linha da Fé, a primeira linha umbandista) e Mãe Iemanjá (Pontificadora da Linha da Vida, a sétima linha umbandista) são “Pai e Mãe de todas as cabeças”. Isso, trocando em miúdos, mostra-nos a necessidade de equilíbrio entre o masculino e o feminino na Criação e, consequentemente, na manifestação religiosa, pois, uma religião não pode se alienar daquilo que é natural da e na Vida. Assim sendo, com masculino e feminino em equilíbrio, enquanto manifestações divinas, devem nos servir de guia e exemplo para a nossa vida em sociedade;
  • A Umbanda é, em si, uma religião predominantemente feminina. Vemos isso no próprio termo, que a mostra como tal, mas também na sua manifestação concreta, que pode ser vista em alguns aspectos, como, por exemplo, na maioria de sacerdotisas conduzindo os trabalhos, em relação aos sacerdotes, na maioria de médiuns mulheres, em relação aos médiuns homens, bem como, na maioria de frequentadoras (assistentes), em relação ao número de homens que frequentam os templos. Não há para isso um estudo estatístico, mas, basta observarmos empiricamente..

 

Observando todos esses movimentos e refletindo acerca deles, surge então um questionamento: Qual a dificuldade que há em homens incorporarem entidades femininas? Infelizmente, claramente se percebe no nosso cotidiano ritualístico, uma “burocracia” [sendo bem suave na definição] para que isso aconteça. E tudo isso se facilita quando o oposto deve ocorrer, ou seja, uma mulher incorporar entidades masculinas.

Essa segunda possibilidade citada ocorre naturalmente, sem imposições ou bloqueios. Talvez, em parte, porque as mulheres se entreguem à sua fé sem tais questionamentos poluidores da mente e do espírito, mas, fundamentalmente, porque, ainda e infelizmente, trazemos (em especial, os homens) para dentro da religião, todos os nossos preconceitos socioculturais [conforme dissemos no início deste texto] e não aprendemos, ou insistimos em não absorver no espírito, aquilo que a Umbanda vem nos trazendo como ensinamento precioso, como regra de ouro.

A Umbanda é Mãe! Em seu bojo se encontram Mães e Pais Orixás mantendo o equilíbrio sustentador na sua manifestação e, consequentemente, para seus adeptos e adeptas, mas também sustentando linhas de trabalhos espirituais que possuem o equilíbrio entre masculino e feminino, trazido a nós por intermédio de entidades que se manifestam sob ambos os gêneros. Tudo isso é, tão somente, desdobramento do equilíbrio que advém da nossa Origem Maior e Divina [Deusa Mãe/Deus Pai].

 

Um saravá fraterno!

André Cozta

 

Link da imagem: https://www.lojasereya.com.br/cortina-oxum-de-rosa/

 

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